Na margem poente da praia fluvial de Almaceda, uma aldeia do concelho de Castelo Branco, restava a ruína de um antigo lagar de azeite movido a água. O programa pedia um pequeno bar de apoio com esplanada. O projeto usou-o como pretexto para outra coisa: devolver ao lugar a sua memória produtiva e transformá-la em espaço público.
Em vez de demolir a ruína, o novo bar instala-se dentro das paredes de pedra do lagar. O volume é leve e assumidamente contemporâneo, em contraste com a massa mineral que o envolve. Na direção da aldeia, uma subtração de cor escura abre o volume e enquadra a vista sobre o casario. Nas traseiras, um acesso de serviço discreto assegura o fornecimento do bar sem interferir na vida da praia fluvial. As mós, as prensas e o engenho hidráulico ficam no lugar, como vestígios legíveis da atividade que ali existiu.
A roda de água que servia o lagar, praticamente desaparecida, foi recuperada e volta a girar. O tanque foi reconstruído em betão, a água chega ao canal de granito recuperado por bombagem, e guardas de vidro laminado protegem o conjunto sem o esconder. Ao anoitecer, a iluminação embutida no tanque dá à roda uma presença quase cenográfica, visível a partir da esplanada.
A construção nova assenta numa estrutura metálica ligeira, com revestimento exterior em ETICS de tom claro. É uma solução económica e rápida de executar, que não compete com a pedra existente.
O desnível entre a estrada e a ribeira é o ponto de partida do desenho do espaço exterior, construído a partir de um único módulo: cubos de betão de 80 cm, empilhados em patamares de 15 cm. É esta modulação que modela as rampas de acesso ao bar e ao cais da praia fluvial, tornando a água acessível a pessoas com mobilidade reduzida. Ao mesmo tempo, cria condições para um uso informal: os cubos funcionam como degrau, assento e limite, e as bancadas que descem até uma nova praça junto à água tornam-se lugares de sentar e de estar, abrigados pela sombra dos salgueiros e pela frescura da vegetação introduzida, de festuca-azul e prado autóctone de sequeiro.
O cuidado posto no desenho do espaço interior do bar, na valorização das pedras existentes e no enquadramento da vista sobre a aldeia procura que o bar não dependa apenas da época balnear. O espaço mantém interesse nos meses de inverno, o que permite a sua exploração e utilização ao longo de todo o ano.
O projeto não musealiza o lagar nem a roda. Reativa-os como parte viva de um lugar de estar, de sombra e de água.
Cliente: Câmara Municipal de Castelo Branco · Área de intervenção: 815 m² · Área de construção: 129 m² · Ano: 2026
Arquitetos coordenadores: Alexandra Belo, Vítor Mingacho · Equipa: Maria Marques · Fotografia: João Lopes Cardoso
















