Na dbA arquitectura, temos vindo a explorar soluções construtivas que aliam rigor técnico a sustentabilidade — um interesse que nos levou a apresentar, na Universidade Técnica de Munique, o nosso trabalho de investigação sobre construção em cânhamo. Partilhamos aqui algumas das razões que nos trouxeram até este material.
O que é o “hempcrete”
O betão de cânhamo, ou hempcrete (que pode ser aplicado em blocos, tipo tijolo convencional, ou com betão) é um material compósito feito a partir da parte lenhosa da planta do cânhamo (o “shiv”), misturada com um ligante à base de cal. O resultado é um material leve, isolante, resistente ao fogo, a pragas e a bolores — e com uma característica que o distingue de praticamente qualquer outro material de construção convencional: em vez de emitir carbono, absorve-o.
Uma pegada carbónica invulgar
A generalidade dos materiais de construção — betão, aço, tijolo — tem uma pegada carbónica positiva: emitem mais CO₂ do que aquele que alguma vez capturam. O cânhamo inverte esta lógica.
Durante o seu crescimento, que se completa em poucos meses, a planta absorve grandes quantidades de CO₂ da atmosfera, sequestrando mais carbono do que praticamente qualquer outra cultura agrícola comercial. Estudos indicam que um metro cúbico de hempcrete pode sequestrar na ordem dos 300 kg de CO₂, e paredes com pelo menos 20% de cânhamo no seu peso tornam-se materiais efetivamente carbono-negativos, mesmo contabilizando as emissões associadas à produção do ligante de cal.
O único ponto crítico do processo é precisamente a extração e produção da cal usada como ligante, que tem a sua própria pegada carbónica — sobretudo quando se recorre a ligantes com cimento Portland. Ainda assim, os estudos mostram consistentemente que os benefícios de sequestração superam largamente as emissões geradas na produção do ligante, resultando num balanço ambiental global positivo.
Porque interessa a um atelier de arquitetura
Para quem projeta edifícios — sobretudo em contextos de reabilitação e habitação, como grande parte do trabalho que desenvolvemos na região de Castelo Branco — a escolha de materiais deixou de ser uma questão apenas estética ou orçamental. É também uma decisão sobre o impacto ambiental de cada projeto ao longo de décadas.
O cânhamo continua a sequestrar carbono muito depois de aplicado, ao longo de toda a vida útil do edifício. Isto significa que uma casa construída com hempcrete não é apenas “menos poluente” do que uma equivalente em betão — pode representar, ao longo do tempo, um balanço de carbono efetivamente negativo.
Os desafios que ainda existem
Não escondemos que este é ainda um material em fase de adoção limitada. O principal obstáculo continua a ser o custo, superior ao do betão convencional ou alvenarias de tijolo, embora a diferença tenda a estreitar-se à medida que a produção nacional cresce.
No entanto, quando analisamos pelo ponto de vista de uma fachada terminada e no período de vida do edifício, a questão muda de figura:
- com um pano de bloco de cânhamo, rebocado, consegue-se um nível de isolamento muito superior às soluções convencionais, pelo que a mão de obra diminui substancialmente;
- o desempenho desta fachada é francamente superior às soluções tradicionais, pelo que teremos um consumo energético (para aquecimento e arrefecimento) muito inferior a uma construção tradicional.
O nosso interesse
É por reconhecermos este potencial — e as suas limitações reais — que temos dedicado tempo a estudar e a discutir estas soluções construtivas. Acreditamos que o futuro da arquitetura passa também por integrar, sempre que o contexto o permita, materiais que reduzam o impacto ambiental dos edifícios sem comprometer o desempenho técnico ou o conforto de quem neles vive.
