A propriedade do Troviscal, no concelho da Sertã, estende-se por um pouco mais de hectare e meio de encosta pedregosa, entre mata e várias ruínas dispersas pelo terreno, vestígios evidentes de um povoamento antigo e disperso do lugar que a intervenção não apaga. É nesse terreno, marcado por muros de xisto meio apagados e por uma velha casa já existente, que se funda o projeto: não como um gesto novo sobre um lugar vazio, mas como a continuação de um habitar que nunca deixou de lá estar.
A moradia existente, construída em alvenaria de xisto, é o ponto de partida. As suas paredes de pedra mantêm-se, recuperam-se, limpam-se — não se disfarçam sob um acabamento estranho ao lugar. É sobre essa base que a intervenção acrescenta o necessário: os quartos, as instalações, os espaços de estar que um programa de acolhimento hoje exige.
Para essa parte nova, a escolha recai sobre o bloco de cânhamo. É um material que, como a pedra que o antecede, vem da terra e a ela regressa — mas responde a uma exigência distinta, a de um conforto térmico e higrométrico que a construção tradicional, por si só, já não garante. O cânhamo reboca-se com uma base de cal, deixando as paredes respirar, como sempre respiraram as de xisto ao lado. Por fora, o branco do reboco e as cantarias de pedra existente, recuperadas e limpas, aproximam a fachada nova da fachada antiga, sem que se torne necessário escolher entre uma e outra. Um branco só, sem hierarquia entre o que é antigo e o que é novo.
O programa organiza-se em torno de três tipologias de quarto, cada uma com casa de banho própria e, nalguns casos, varanda voltada para a paisagem, servidas por uma receção, uma cozinha ampla, uma zona de estar comum e uma zona de lazer voltada ao exterior — um pequeno alojamento rural, pensado para quem procura o campo sem abdicar do conforto. No interior, a cortiça no pavimento e o gesso cartonado nos tetos suavizam o contraste entre a espessura da pedra e a leveza do que é novo.
Lá fora, entre as ruínas que pontuam o terreno e a mata que o envolve, o edifício não pretende dominar a paisagem: organiza-se em torno dela, aceitando o declive, os muros existentes, o estacionamento e os acessos que a topografia do lugar já tinha desenhado antes de qualquer projeto. Recuperar, aqui, não é copiar o passado — é dar-lhe condições para continuar habitado.





