Castelo Branco · Lisboa

Desenhar o território, construir memória.

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casa silveira

A Casa Silveira implanta-se num terreno rural na freguesia da Silveira, concelho de Torres Vedras, marcado por uma suave pendente e pela presença de oliveiras na paisagem envolvente. O projeto parte de um muro em pedra existente que delimitava a antiga propriedade, mantido como memória do lugar e integrado no desenho dos acessos e do jardim — o elemento que ancora a nova construção à história do terreno.

A resposta arquitetónica reinterpreta a tipologia de cobertura de duas águas comum na região, cortando-a numa única vertente e gerando um volume compacto e assimétrico, contemporâneo mas reconhecível na paisagem rural. Nesta massa unitária, rebocada em terracota, dois recortes estruturam a relação entre o volume fechado e a luz: um grande arco que rasga o piso térreo e cria um alpendre coberto, espaço de transição entre interior e exterior, e um conjunto de janelas circulares (óculos) que pontuam as fachadas a diferentes escalas. Estes elementos curvos contrastam com a geometria retilínea do volume, como assinatura formal do projeto.

O programa distribui-se por dois pisos. No piso térreo, a sala de estar, a zona de refeições e a cozinha organizam-se em open space, servidas por uma área técnica e uma instalação sanitária de apoio, abrindo-se para dois decks exteriores — um protegido pelo alpendre em arco, voltado a sudeste, o outro voltado a poente. No piso superior, dois quartos e uma instalação sanitária comum organizam-se em torno de um núcleo de circulação e escadas, com pé-direito duplo que traz luz zenital ao coração da casa.

No exterior, o reboco monocromático é interrompido por um plano em tom mais claro que assinala o arco de entrada; as caixilharias brancas e o embasamento em pedra, resultado da preservação do muro existente, completam uma paleta reduzida. Os pátios são pavimentados a mosaico cerâmico, reforçando o carácter doméstico dos espaços exteriores.

A manutenção do muro existente, prolongado como socalco de acesso à entrada norte, reduz a movimentação de terras e reaproveita um elemento já adaptado à topografia. A vegetação mediterrânica de baixa manutenção dialoga com o olival existente, e a orientação dos vãos principais a sudeste, protegidos pelo alpendre, procura um equilíbrio passivo de conforto térmico.

Entre a geometria simples do volume e os gestos escavados que o pontuam — o arco, o óculo, o alpendre —, a Casa Silveira dialoga com a ruralidade do lugar sem a imitar: uma presença contemporânea e discreta, construída sobre a memória do muro que já ali estava.